Renata Bicalho 

Escritora

Completamos hoje, pelo menos aqui na Costa Rica, 26 semanas, 182 dias de isolamento social. São seis meses, meio ano, em regime de  reclusão domiciliar. Presos em casa. Claro que agora estão tentando iniciar a fase de abertura, mas nada voltou ao normal. E não sabemos se voltará, ou se teremos que nos acostumar ao o ‘novo normal’. Acho que a segunda opção é a mais provável, porque ninguém será como antes. Tanto tempo afastado de convívio social normal, tranquilo, sem as preocupações dos protocolos de segurança ou dos decretos determinando horários em que se pode sair, para onde se pode ir, com quem, etc. Tantas famílias que perderam pessoas, tantos desempregados, empresários falidos, lojas e restaurantes definitivamente fechados, tantos sonhos estilhaçados como vidraças em um furacão. Sim, porque cada ser humano neste planeta tem seu mundo, seus objetivos, seus sonhos. Independente de sexo, idade, tamanho, cor, estado civil, religião, nacionalidade, país de residência, cada um de nós tem seu mundo interno único, e neles habitam lembranças – boas e ruins, objetivos, sonhos, esperanças, planos. E todos nós, todos, tivemos nossa liberdade tolhida de alguma forma durante esses últimos seis meses. De fronteiras de países fechadas, a voos cancelados, de escolas e empresas fisicamente fechadas, a uma vida inteira transferida para a realidade virtual – de um dia para o outro. Foi difícil, pelo menos em algum aspecto, para todo mundo. E seguramente sairemos dessa experiencia diferentes.

Ontem precisei sair de casa, oficialmente, pela primeira vez. Até então, as saídas eram limitadas ao mínimo necessário. Mas ontem foi um dia especial. Com hora agendada com uma fotógrafa profissional, dentro do prédio do Ministério da Cultura do país, para uma sessão de fotos oficiais para um evento que já deveria ter acontecido, mas foi adiado, como tantas outras coisas, para o próximo ano. Mas a programação para esse evento de escritoras aqui da Costa Rica, um círculo mágico de mulheres que se atrevem a se expressar através das palavras e do qual tenho a honra de participar, continua firme e forte. E ontem, depois de seis meses andando de havaianas, precisei pensar no que vestir, fazer uma escova nos cabelos e uma maquiagem leve para ajudar na foto! Esse pequeno compromisso, que talvez tivesse passado quase desapercebido em outras épocas, virou um evento importantíssimo após seis meses de isolamento. Nossa alma tem sede de contato, de convívios, de relacionamentos. Mas vamos ficando em casa, a energia vai diminuindo, vamos nos encolhendo, e deixando de querer sair. Sem perceber, já estamos muitas vezes escolhendo seguir isolados. Mas sair ontem me fez ver o quanto precisamos da vida lá fora. Como diria Vinicius de Morais, ‘a vida só se dá pra quem se deu’. Rever algumas amigas foi especial, precisar me cuidar, me embelezar um pouco, foi especial, precisar sair de carro para um lugar desconhecido, foi especial, entrar no Ministério de Cultura do país, sendo esperada por duas fotógrafas para uma sessão de fotos, foi mega especial (me senti a própria Gisele Bunchen!), precisar interagir com desconhecidos na rua, pra perguntar onde era a entrada do prédio ou onde estacionar, foi especial. Tudo foi especial. Foi importante para que eu pudesse ver o quanto o convívio faz falta. O quanto precisamos estar de alguma forma incluídos em um todo maior que apenas a nossa casa. É hora de buscarmos a energia para voltar a viver e sair do casulo, porque dessa vida, ninguém sai vivo no final!

As fotos das fotógrafas ainda não tenho, mas essa aí tirei em casa logo antes de sair! 😉

A vida nos dá sinais. O corpo nos dá sinais. A mente nos dá sinais. O coração nos dá sinais. Até o estômago ronca quando está com fome. Sinais. São inúmeros os sinais que recebemos o tempo todo. Para reconhecê-los, precisamos estar atentos, porque às vezes eles são ruidosos e extravagantes, um pum, por exemplo; mas outras tantas vezes eles estão camuflados, escondidos.

Procure e encontrará.

Esta mulher peregrina, hiker, camuflada entre as folhas, somos nós, caminhando pela vida, seguindo a natureza e nos apoiando mutuamente quando os passos ficam tortuosos.

Procure, e encontrará.

Texto e fotografia: Renata Bicalho

Nem tudo são flores.

O ano da reclusão muitas vezes parece cinza.

Mas as orquídeas seguem florindo.

Os sonhos interrompidos podem cortar como espinhos.

Mas os brotos seguem se abrindo.

Os abraços e beijos proibidos são como limões no copo não diluídos.

Mas os tons de rosa, roxo e lilás ainda adoçam o olhar.

A distância forçada da família e dos amigos são como dietas rígidas em que o chocolate é proibido.

Mas as orquídeas do meu quintal, ah, essas continuam sorrindo!

Texto, fotos e quintal de Renata Bicalho.

1. Elefante ao Mar 

(Primeiro Capítulo do livro “O Jardim de Chloe”, de Renata Bicalho)

“A boneca Maya vivia na Índia, em uma loja de brinquedos na beira da praia. Ela era linda, de cabelos longos e cor de chocolate, um sorriso doce, um brilho bonito nos olhos cor de mel e um pontinho vermelho no meio das sobrancelhas. 

Ela usava jóias e roupas típicas de cor laranja e com detalhes dourados.

Maya ficava sempre em uma prateleira alta com vista privilegiada para o mar. Ela via a praia e as pessoas que passavam por ali todos os dias: desde pescadores que chegavam de madrugada para buscar o ganha-pão diário, até famílias inteiras que vinham se distrair ao sol e recarregar as energias na água salgada do mar. 

A boneca observava o mundo e achava normal quase tudo. Quase, porque naquela região vivia um elefante solitário que costumava caminhar pela praia todas as tardes. 

O elefante não era nem filhote, nem velho. Nem muito pequeno, nem muito grande.  Ele tinha orelhas cinzas, grandes e caídas, e seu olhar – sempre para o oceano em algum ponto distante dali – indicava um coração triste. Seus dentes de marfim haviam sido cortados por caçadores.

Ele costumava caminhar lentamente pela areia, suas patas tocando as ondas que se desfaziam em espuma, enquanto o sol tocava a linha do mar e o céu se pintava de vermelho e laranja. A cena se repetia quase todo final de tarde. 

Um dia, a boneca conseguiu escapar da loja se escondendo na sacola de compras de uma cliente. Ela esperou a moça atravessar a rua para o lado da praia e pulou da bolsa. Caminhou até o elefante solitário que estava ali sentado e começou a conversar com ele. 

“Oi seu elefante, tudo bem? Sou a Maya. Vivo naquela loja de presentes esperando que alguém me compre e me leve pra casa. Vejo você sempre aqui sozinho olhando para o horizonte. Você gosta muito de ver o sol se pôr, não é?” 

O elefante achou estranho uma boneca conversando com ele, e se incomodou pelo atrevimento dela em interromper seus pensamentos e sua solidão. 

“Quem ela achava que era?” Ele pensou. 

Maya não se importou pela falta de resposta. Ela era uma menina curiosa, alegre e cheia de vida. Queria conhecer o mundo e entender tudo, então continuou falando. 

“Sabe seu elefante, eu também gosto de ver o movimento da praia! Gosto de ver as crianças brincando na areia ou nas ondas do mar. Gosto de ver os pescadores quando voltam felizes com suas redes cheias de peixes. Gosto de ver os cachorros que passeiam com seus donos, mas o momento mais curioso do meu dia é sempre quando vejo você caminhando. Fico imaginando em que você estaria pensando. Você parece muito triste. Já pensei até em te sugerir uma música para ouvir e se alegrar um pouco, mas não sei qual o seu estilo musical favorito. O que você gosta de fazer para se divertir? Por que você está tão triste?”

O elefante se deu por vencido. Entendeu que a boneca curiosa e falante não o deixaria em paz enquanto ele não conversasse com ela. 

Resolveu responder de forma curta e objetiva, tentando não render muito o assunto.

“Qual é o seu nome mesmo? Ah sim, Maya. Olha, eu não sou um cara de muita conversa. Gosto de estar sozinho com os meus pensamentos e as minhas memórias. Venho aqui para imaginar como seria se eu pudesse nadar e ir morar naquela ilha ali adiante.”  

“Morar na ilha? Aquela lá da frente, cheia de plantas, flores e pássaros, mas sem ninguém? Por que você gostaria de morar sozinho?” Maya perguntou. 

“Eu não estaria sozinho. Estaria longe do ser humano, esse bicho cruel que matou meus amigos e minha família. Estaria livre dos homens e no meio da natureza, das flores, das plantas, da praia, dos pássaros, dos peixes e de todos os outros animais que vivem por ali.” 

“Ah entendi! Mas se isso te deixaria tão feliz, porque você não nada até lá? Realize seu sonho!” Disse a boneca.

“Eu não sei nadar. Tenho medo da água. Tenho medo de não conseguir chegar até a ilha”, ele respondeu. 

“Seu elefante, será que você tem medo da água ou o medo é de mudar a sua vida? Do desconhecido? Você pode estar tão acostumado à sua tristeza que talvez te assuste a ideia de ser feliz de verdade na ilha. Se é esse o seu sonho e se viver lá fará você feliz, seja corajoso. Vai com medo, mas vai”, disse Maya.

O elefante ficou chocado com a franqueza e a petulância da boneca e pensou, “como essa boneca do tamanho de uma formiga ousa falar assim comigo?”

Levantou-se e foi embora, com seu ego ferido por uma menina que praticamente o chamou de covarde.

Ele passou vários dias digerindo a raiva que sentia pela boneca. Não caminhava na praia para não correr o risco de vê-la. 

Uma semana se passou, e o elefante vinha tendo uns sonhos estranhos desde sua conversa com Maya. Acordou assustado um dia, após sonhar com um vagalume falando para ele acreditar na sua própria luz. Não entendeu bem se era a luz do bumbum do inseto ou o brilho do coração do elefante. 

“Que sonho estranho”, pensou. 

Passou o dia tendo vontade de nadar.

Escreveu um bilhete dizendo que estava cansado da dor e da tristeza de viver sozinho, sem sua família e sem seus amigos. 

“Vou para a ilha”, escreveu, “vou realizar o meu sonho.”

Dobrou o papel, colocou-o dentro de uma garrafa de vidro e levou a garrafa com ele até a praia. 

Parou em frente à loja da boneca, deu um adeus para ela de longe e foi para a beira do mar. Sentou-se na areia, fechou os olhos, meditou um pouco, depois apreciou o sol se pondo atrás da ilha, os pássaros bailando no ar ao redor dela e até uma baleia que saltava lá no fundo. Tomou coragem, jogou a garrafa no mar e entrou na água também, nadando rumo ao seu sonho. 

A noite havia chegado, e o céu nublado bloqueava a luz das estrelas e da lua. O elefante logo descobriu que não tinha dificuldades para nadar. O problema era a falta de luz. Ele não conseguia ver nada, então não sabia para que lado ir.

Tudo era escuridão. 

Seguiu nadando, apesar de estar com medo. Fechou os olhos e se lembrou do sonho com o vagalume que lhe dizia para acreditar na própria luz. Aquele pensamento de alguma forma lhe deu confiança de que um milagre o levaria até à ilha. 

De repente, olhou para o fundo do oceano e viu vários peixinhos iluminados se juntando em fila e abrindo o caminho para ele. O coração do elefante se encheu de esperança!

Olhou para o céu e viu também vários vagalumes voando juntos e fazendo acrobacias perto dele. 

“Voo sincronizado”, pensou o elefante! Os insetos se organizaram e formaram uma estrela no céu. Se separaram e se juntaram de novo.  Agora formaram um coração, com seus bumbuns piscando. Depois formaram um avião, uma flor e até um dinossauro os danados dos vagalumes criaram no céu! Por fim, os vagalumes se organizaram e formaram uma seta indicando o caminho da ilha. O elefante seguiu nadando na direção apontada. 

“Que espertos esses insetos de bumbum brilhante!” Ele pensou, e seguiu nadando até a ilha, se sentindo leve como uma pluma. O gigante estava grato pela luz dos seus amigos do fundo do mar lhe mostrando o caminho, e feliz com seus amigos voadores e brincalhões iluminando o céu.

A garrafa com seu bilhete ficou no mar, e ele não viu para que lado foi. 

Maya havia assistido toda a cena da viagem do elefante até a ilha. Ela havia visto as luzes dos vagalumes e dos peixinhos. 

Alguns dias depois, a boneca foi comprada por um homem que viajava e queria levar um presente para a filha. Quando o pai de Chloe chegou de viagem, deu a boneca de presente para a menina e as duas se tornaram grandes amigas. 

Maya se orgulhava ao contar histórias sobre o elefante. A boneca mostrava feliz a mensagem que ele tinha deixado na garrafa e que ela tinha encontrado na areia tempos depois. 

“Fui a gotinha de esperança na vida daquele paquiderme medroso”, dizia Maya. 

Chloe se alegrava em imaginar as luzes dos peixes, dos vagalumes e o olhar feliz de um elefante realizando seu sonho. “

O Jardim de Chloe: Um jardim de gratidão e as incríveis aventuras de uma menina, suas bonecas, um gato e um elefante. (Portuguese Edition)
por Amazon.com Services LLC
Más información: https://www.amazon.com/dp/B087653WFX/ref=cm_sw_em_r_mt_dp_SHZmFb1PRMCM6

Disponível na amazon também em inglês, Chloe’s Garden, tanto em formato ebook como livro físico.

                    

Hoje acordei com preguiça. Preguiça de ler (tenho uma pilha de livros na fila de espera), preguiça de arrumar a casa, de cozinhar, de passear com o cachorro, de montar o quebra-cabeças mega complexo que está ocupando boa parte da mesa de jantar, enfim, preguiça de tudo. Desânimo geral, cansaço por essa quarentena que não termina nunca!

Tentei ler um pouco, mas faltava atenção para embarcar na história do livro. Dei uma voltinha pelas redes sociais e vi um desenho super bacana, inspirado em uma fotografia de uma família muito querida. Tive vontade de ter um desenho desses da minha família também. Pesquisei por alguns minutos sobre opções, mas acabei resolvendo tentar eu mesma fazer o tal desenho. Embarquei na “memory lane” em busca de uma foto em que nós quatro estivéssemos juntinhos e sorridentes, e, finalmente, comecei a aventura, usando a tecnologia como aliada nessa tarefa complicada.

Contornei a foto no tablet da melhor maneira que consegui, e então passei à fase de colorir. O dia voou e eu nem percebi. Minha criança interior ficou encantada por ter passado um dia inteiro desenhando e colorindo! Recomendo a terapia para os dias de desânimo: leve sua criança interior para fazer algo diferente, algo especial, algo que a deixe feliz. Valem manualidades, na verdade, vale qualquer tipo de artes, vale dançar, andar de bicicleta, caminhar na natureza, brincar no chão com as outras crianças da casa (se for o caso), imaginar figuras nas nuvens, procurar joaninhas nas plantas, ou qualquer outra atividade que devore o tempo e te traga leveza!

Segue o resultado do meu dia.

Gracias! Thank you! Grazie! Obrigada! 🙌🏻

Uma volta ao sol a mais, uma primavera a mais, dois ou três fios de cabelos brancos a mais 😉, um par de ruguinhas no rosto a mais e muita gratidão sempre!

A vida transbordando!

Que benção ter saúde pra viver tantas experiências!

Esse último ano foi e segue sendo uma montanha russa de emoções! Tratamento de câncer do pai, o ouvido pedindo ajuda, dar aulas de português para crianças ticas, os 18 anos de um filho, 17 do outro, formatura 👨🏻‍🎓 no high school, applications para faculdades, a longa e ansiosa espera pelos resultados dessas faculdades, uma quarentena que transformou o sentido da palavra (40) e já vai completando 5 meses, uma pandemia mundial, dois contos meus publicados em espanhol numa Antologia Feminina aqui na Costa Rica, com direito a lançamento e festa com pompa e circunstância, leituras do meu conto em lugares públicos e em espanhol (🤪 la garantia soy yo… 😬), um livro infantil escrito e publicado na amazon, um blog reativado, despedidas de amigas queridas (só geograficamente, porque no coração seguimos juntas), chegadas de novas amigas, as alegrias das vitórias e as ansiedades, os medos e as tristezas que fazem parte do processo – “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”!

Esses são os eventos principais que me recordo agora, enquanto escrevo. Tão ou mais importantes que eles são as entrelinhas, o silêncio entre duas palavras, os detalhes (a vida é feita de detalhes!). O café antes da batalha, o sol forte antes da tempestade, o arco-íris silencioso depois da chuva, o pólen que se espalha no ar antes da primavera, o chocolatinho depois do almoço (ou antes se vc quiser subverter as regras!), os rabiscos no caderno antes do texto corrigido, o álcool gel nas mãos depois de lavá-las pela milionésima vez, as gotinhas mágicas dos florais e óleos essenciais movendo sutilmente a energia, a borboleta azul que passa durante a caminhada, o coqueiro que dá sombra, água de coco e apoia a rede para o descanso, a economia do papel higiênico na pandemia, o modelo melhor de máscara (novo normal), enfim, os detalhes!

Nesse aniversário que passa, só quero agradecer! A tudo e a todos! Às dificuldades que me fizeram crescer, às amizades que me fortaleceram pelo caminho, ao amor e carinho de cada um de vcs que me escreveu, ligou, mandou recadinho, sinal de fumaça, pombo correio e tudo mais! Ao maridão e amigas que organizaram uma festa supresa modelo quarentena, mas incrivelmente especial, aos meus pais, irmãs, sobrinhos e sobrinhas lindas com suas video chamadas e tanto carinho, à todos os amigos e mesmo aos que não conheço, mas que leram e seguem lendo o Jardim de Chloe em português, ou Chloe’s Garden em inglês e me enviando feedback! A tudo e todos! MUITO OBRIGADA! Vocês são essenciais!! Sigam se cuidando nesses tempos malucos e espalhando Luz e alegria! Amo vcs!! ❤️

Depois de alguns dias tumultuados de mudança de casa, embalando, encaixotando e logo desembalando e desencaixotando todos os seus pertences, buscando novos lugares, armários e gavetas onde organizar e guardar tudo, uma pequena pausa para descansar era necessária!

O sol já havia se posto. Caia a noite. O céu escurecendo, azul quase preto. Ela decidiu que seria um bom momento para se sentar no jardim e apreciar a lua refletida nas águas da piscina, contar as estrelas, sentir o cheiro de chuva que estava no ar ameaçando molhar tudo.

Sentou-se na cadeira de plastico fria e apreciava a merecida pausa. Ouvia o barulho das folhas ao vento e uma música suave que tocava baixinho vinda da casa de algum vizinho. Fechou os olhos e apreciou o momento, sentindo uma enorme gratidão por tudo o que estava passando. Sentiu um aroma delicado de flores noturnas que chegava devagar e inundava o ambiente, deixando a noite ainda mais especial.

Embriagada por toda a natureza ao seu redor, ouviu um ruído diferente, forte, como se um animal ali perto tivesse esbarrado em algo. Estava escuro e as luzes do jardim estavam apagadas. Chamou pelo seu cachorro, segura de que era ele chegando ainda meio perdido ali. Ele não veio. O barulho se repetiu. Como não haviam luzes ali e a noite já havia caído, as únicas luzes que vinham eram da lua e das estrelas. Ela se levantou e procurou pelo cachorro, mas o que viu não foi ele. Um tatu grande fazia buracos no jardim e, logo atrás dele, outro tatu caminhava desajeitado, virando de um lado para o outro e trombando nos vasos de plantas que ainda estavam espalhados, esperando pelo seu lugar definitivo no novo lar.

Ela deu um pulo. Que susto! No escuro, em meio à paz e ao seu descanso, não um, mas dois tatus! Será que eram eles invadindo sua casa nova ou ela invadindo o lar deles?

Na dúvida, ela se despediu dos animais e entrou na casa, fechando a porta atrás de si para que os tatus não se sentissem convidados a entrar também.

Lá fora, uma pandemia arrebata o mundo. Aqui dentro, estou em um jardim florido, O Jardim de Chloe, na companhia de um gato malvado, um elefante medroso e várias bonecas.

Lá fora, um vírus contamina a população, levando muitos aos hospitais e outros ao fim dos seus dias na Terra. Aqui dentro, desvendo as razões que podem levar uma adolescente a incendiar sua própria casa, enquanto também aprendo sobre ‘’pequenos incêndios” que existem nos relacionamentos e “por todo lado’’.

Lá fora, políticos debatem sobre vacinas, sobre corrupção, sobre protocolos de saúde e sobre o desemprego que aumenta a cada minuto dessa pandemia. Aqui dentro, afortunada que sou por ter um lar e comida na geladeira, estou na Índia, em busca de espiritualidade e sentido à minha existência.

Lá fora, em pleno 2020, os crimes contra mulheres aumentam de forma assustadora. Tanta tecnologia, tanto conhecimento, tanto estudo, milênios de evolução envolvidos, e o feminicídio continua, desgraçadamente, no noticiário cotidiano. Aqui dentro, mulheres correm com lobos, conhecem o poder do seu instinto, da sua energia criadora e se descobrem cada dia mais fortes e mágicas.

Lá fora, negros lutam por respeito e igualdade, necessidades básicas e direitos fundamentais que, em pleno século XXI ainda estão longe de ser a regra. Aqui dentro, Ifemelu vai da Nigéria para os Estados Unidos e vive seu longo caminho de batalhas contra a discriminação e o racismo para se manter imigrante naquele país, para estudar, se desenvolver e voltar ao seu país como uma mulher forte, independente e competente.

Não há dúvidas, Ray Bradburry estava certo ao afirmar que precisamos estar “embriagados pela escrita, para que a realidade não nos destrua”. 

O nosso Big Bang

por Renata Bicalho

Boom! Uma explosão. Boom, boom! Outra. E mais outra. Muitas explosões poderiam ter sido ouvidas naquele momento, mas não foram. Flashes de luz poderiam ter sido vistos, como um enorme espetáculo de fogos de artifício, mas ninguém viu. Quem sabe até diversos odores sobressaíram ali. Talvez o cheiro de fogo, de combustão, de gases variados, ou até o cheiro de rosas, de grama recém cortada e do café recém moído, sei lá. Talvez todos os cheiros do mundo, misturados, ao mesmo tempo, poderiam ter sido sentidos naquele momento, mas ninguém sentiu.

A explosão foi assustadora e, ao mesmo tempo, maravilhosa. No escuro do espaço, as luzes, o estrondo e o milagre da criação aconteceram sem plateia. O Big Bang pode ser estudado, imaginado e pesquisado, mas não foi testemunhado.

Vários planetas, luas, estrelas, cometas, astros em geral se espalharam de maneira rápida em um espaço antes escuro e vazio. Pontinhos de luz, como vagalumes brilhando suspensos no ar. Poesia pura! O mundo foi criado em uma dança intensa, às vezes delicada, suave e volátil, outras vezes violenta, forte e agressiva. E milhões de anos se passaram até que chegamos aqui. Hoje. 

Sentada na cadeira do quintal, presa em casa por uma quarentena que já dura mais de 100 dias, imposta por governos no mundo todo, em uma tentativa desordenada e despreparada de se conter um vírus potencialmente letal e altamente contagioso que, invisível no ar, se espalhou pelo planeta e mudou a vida de todos.

Nessa cadeira em que me deixo esparramar no quintal de casa, no escuro da noite, aprecio as luzes das estrelas, a lua cheia que brilha no céu com todas as suas sombras e crateras. Imagino como se formaram aquelas marcas. Seriam consequências de estrelas, ou outros astros que se chocaram com a nossa lua? 

Presos em casa há mais de 100 dias, só nos resta observar os pontinhos brilhantes na noite escura, ou os pássaros e borboletas que voam livres durante o dia. Precisamos da poesia para seguirmos com esperança e com a imaginação solta, ilustrando mentalmente aquele Big Bang nunca testemunhado. 

Quem sabe um novo Big Bang estaria silenciosamente em curso nesse momento? As energias e a luz de cada um de nós poderiam estar reclusas em suas casas, em seus casulos, se transformando durante a pandemia, vibrando alto e forte para uma evolução tão necessária. Um novo mundo de mais amor, mais empatia e de harmonia poderia tanto estar sendo silenciosamente criado em cada um de nós!

Boom! Como desejaria testemunhar este milagre!   

 

Adventures about a gratitude garden, a girl’s imagination, her dolls, and a cat.

Stories about the importance of following our dreams and about the courage to make them happen.

Story by Renata Bicalho / Illustrations by Oketoon (Fivver) and Renata  

***

Aventuras sobre um jardim de gratidão, a imaginação de uma menina, suas bonecas e um gato.

Histórias sobre a importância de seguir nossos sonhos e ter a coragem para realizá-los.

Escrito por Renata Bicalho / Ilustrações por Oketoon (Fivver) e Renata

“It was an autumn morning. On the park’s ground, there were many fallen leaves: red, yellow, orange, and brown. It looked like a big rug on top of the dry grass that lay there. 

A chubby and short little bougainvillea struggled to keep its last purple and pink flowers, because strong winds in those days were knocking over everything light, releasing all that was trapped, and setting free what wanted to fly.”

***

“Era uma manhã de outono. No chão do parque, muitas folhas: vermelhas, amarelas, laranjas e marrons. Pareciam formar um grande tapete por cima da grama seca que ali estava. 

Uma bougainville gorducha e baixinha se esforçava para manter as últimas flores roxas e rosadas, porque o vento naqueles dias andava bem forte, derrubando tudo o que era leve, soltando o que estava preso, liberando o que queria voar.”

 

 

Dia 487 da quarentena.

/ Diário de Renata Bicalho.

/ Ela se olha no espelho do banheiro. Está lavando suas mãos com cuidado, como tem feito várias vezes ao dia nesses tempos de corona. Atrás do seu reflexo, vê também a janela e a vista lá de fora. Escuta o cantar de um pássaro e o vê ali, dentro do espelho.

Depois de tantos dias, semanas, meses presa em casa pela quarentena, a imagem daquele pássaro de barriga amarela e asas azuis, acompanhado do som da água que escorre da torneira e do canto aveludado daquela ave, a levam a fechar os olhos por um segundo, buscando sentir a liberdade e a leveza daquele cantor feliz. 

Ela, então, decide pegar um caderno, armar-se de lápis de cor e desenhar pássaros, um céu azul com poucas e delicadas nuvens, algumas árvores, flores e um casal de borboletas brancas.

Terminado o desenho, ela se transporta para aquele caderno, e se sente alegre e livre de novo. Eureca! Esse é o segredo para sair da prisão domiciliar imposta pela quarentena: desenhar vidas paralelas, mundos alternativos, e se transportar para eles.

Se cansa dos cadernos. Decide buscar novas aventuras em livros!

Volta ao banheiro para lavar suas mãos mais uma vez, “melhor garantir, né?!”, e vai, agora, atrás de um romance.

O céu é o limite!

Por Renata Bicalho

Acabaram de me encher de gás. Me sinto inflado, cheio, orgulhoso do meu brilho dourado e da minha forma de coração. 

Junto comigo, vários outros inflados, coloridos e felizes somos levados de carro a passear por uma autopista.

O vento é muito forte, me parece que o carro vai rápido demais. Talvez seja impressão minha, já que os demais carros seguem todos no mesmo ritmo.

Chegamos a um encontro de balões! Uma festa só pra gente! Muitos e muitos inflados como eu, em vários carros diferentes estacionados lado a lado. Uma linha fina é tudo o que nos mantém unidos, o que nos impede de voar. 

Passada a euforia inicial do encontro, começo a observar que dentro de cada carro está uma família e, entre cada família, uma pessoa usando um vestido preto comprido e um chapéu estranho, quadrado no alto da cabeça e com um 2020 em dourado preso por finas linhas penduradas na lateral.

Dentro do carro em que estou, vejo quatro pessoas, que parecem ser a mãe, o pai, o jovem da roupa preta e chapéu, e um outro jovem. Devem ser irmãos.

Sinto uma mistura de sentimentos ali dentro. Estão alegres, mas as vezes bate uma onda de tristeza. Estão orgulhosos, mas as vezes sinto uma brisa de medo. Não sei ao certo o que está acontecendo, só sei que a energia ali é elevada e as emoções estão à flor da pele.

Bate um vento mais forte e balanço, dançando no ar junto com os outros ao meu lado. Estamos felizes pela liberdade! O céu está azul límpido e todos os outros carros alegram o lugar com seus balões coloridos e dançantes. 

Começa um primeiro anúncio no microfone. Os carros todos buzinam. Me assusto com o barulho.

Então vem um silêncio respeitoso. Dava pra ouvir os corações daquelas pessoas pulsando forte. Em seguida, um homem, também com aquela veste preta, começa a falar no microfone, no palco que está montado na frente dos carros.

Pelo teto solar, volto a olhar para dentro do carro, e vejo uma lágrima que escorre pelo rosto da mãe. O coração do jovem de vestido preto bate tão forte que parece fazer tremer o carro todo. O que poderia causar tanta emoção assim?

Olho ao lado, e os outros carros parecem todos no mesmo clima. O silêncio do lado de fora só é cortado pelos ruídos suaves da dança dos balões e pelo cantar dos pássaros que sobrevoam por ali, talvez atraídos pela minha beleza dourada e a alegria dos outros balões. 

Dentro do carro se ouvem vozes, música, discursos, tudo saindo diretamente do rádio. Será que todos os carros estão na mesma estação?

O tempo vai passando, vejo lágrimas, sorrisos e abraços tortos dentro do carro. 

De quando em vez se escutam buzinas, todos juntos fazendo muito barulho. O que será que estão comemorando?

Começam a sair dos carros, um a um, os jovens que estão de vestido preto e chapéu quadrado.

O 2020 balança.

Se dirigem ao palco, pegam algum tipo de papel e tiram fotos com os outros 2 homens que já estavam ali, também em vestido preto.

O jovem do meu carro volta com um sorriso de orelha a orelha. Está tão feliz que não parece que caminha, ele voa. 

A família sai do carro. Tiram algumas fotos, seguindo vários protocolos de distanciamento social. Comemoram felizes.

Alguns dos jovens de vestido preto se juntam e jogam para cima o chapéu quadrado. Eu tento acompanhar o voo dos chapéus e me solto também. Estou vibrando tão forte pela emoção desses humanos, que meu coração dourado quer voar. Para mim e para os jovens de 2020, o céu é o limite. 

A toast to first times! First times are wonderful! I love finding new opportunities to experience first times, because they make me feel alive, they make my inner child happy and they bring new sparkles to my eyes!

This year I had the chance to have two short stories published in a book. My first time published! I can’t tell you how happy it made me feel, being amongst 37 other amazing women from different countries, all together on the same project, writing for a Women’s Anthology. It would be too long to name all of the 37, but I’d like to mention my closest companions on this adventure: Mireya Noboa, Claudia Trednick, Francisca Toro, Eiling Dias, Isa, and Monique Giustiniani. Love you all, ladies!

We all had the guidance and coaching of a brilliant woman, Aurelia Valentina Dobles. Aurelia is the teacher of “Talleres de Escritura Magica”, Workshops of Magic Writing, and that’s exactly what she does. She teaches us how to get in touch with the Source of Creativity, and to allow the magic to happen when we touch a pen in the notebook. I am incredibly grateful for having the chance to be one of Aurelia’s students, and to learn from such a wise and strong woman! We are in Costa Rica and she teaches in Spanish, so if you’d like to learn more about her and you speak the language (she teaches in person or online), there goes the link to her facebook page and contact.

https://www.facebook.com/escrituramagicaurelia

Hello!!

After:

. a long time away from posts,

. moving to another country,

. a Yoga Teacher Training,

. a Reiki certification,

. a Bach Flowers certification,

. attending an Eckhart Tolles’s mindful presence week training,

. having two short stories published in a Spanish book of Women Anthology,

. writing and publishing my first children’s book,

. a quarantine of more than 3 months and that’s still in place because of a pandemic,

. my oldest son’s high school graduation,

among many other adventures, I’m back to blogging!

I’ve decided to share with you the many things I’ve been learning, studying, doing, seeing, reading, writing and experiencing!

I’ll be posting about those subjects mentioned above, and I’ll add an extra item: delicious desert recepies with chocolate!

I hope you enjoy!

Stay safe, inhale love and exhale gratitude !! 🙂

 
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