Renata Bicalho 

Escritora

Depois de passar tanto tempo escrevendo e pesquisando sobre mulheres, me inspirei por tantas de nós, que resolvi criar um espaço no blog para destacá-las, homenageá-las. A partir de hoje, começo esse novo tema, “Mulheres que inspiram”, trazendo exemplos daquelas que encontraram seu espaço sagrado no mundo, que foram corajosas para brilhar e espalhar a sua luz, sua autenticidade e sua verdade. Nada mais justo do que começar com ela, Clarice Lispector, uma das mais destacadas e premiadas escritoras brasileiras.

Nascida na Ucrânia, em dezembro de 1920, se mudou com seus pais para o Brasil em 1921, fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Desde pequena, Clarice estudou várias línguas e gostava de escrever poemas. A literatura sempre foi sua grande paixão. Escreveu romances, contos, crônicas e literatura infantil, além de ter trabalhado por um período como redatora e repórter na Agência Nacional, no Correio da Manhã e no Diário da Noite. Foi naturalizada brasileira e se dizia pernambucana. Morreu vítima de um câncer, aos 57 anos, um dia antes do seu aniversário.

Sou fã de carteirinha dos textos da Clarice e não poderia deixar de citá-la no meu primeiro romance:

“E foi como se a miopia passasse e ele visse claramente o mundo. O relance mais profundo e simples que teve da espécie de universo em que vivia e onde viveria. Não um relance de pensamento. Foi apenas como se ele tivesse tirado os óculos, e a miopia mesmo é que o fizesse enxergar. Talvez tenha sido a partir de então que pegou um hábito para o resto da vida: cada vez que a confusão aumentava e ele enxergava pouco, tirava os óculos sob o pretexto de limpá-los e, sem óculos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego.”  (trecho do conto Evolução de uma miopia, do livro ‘A Legião Estrangeira’, republicado no livro Clarice na Cabeceira, 2009, Ed. Rocco, pág. 244).

Esta citação está no epílogo do meu novo livro, Não há como escapar do seu sequestro, como uma alusão ao desejo profundo de enxergar o que está além do que foi dito, de aprender a ler as entrelinhas, de ver com os olhos da alma, do coração, e não apenas com os olhos da mente. Que assim seja!!             

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” (Clarice Lispector)

 

 

 

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