Renata Bicalho 

Escritora

de Clarice Lispector, trecho do livro “Perto do coração selvagem”, escrito em 1998, mas tão atual como se fosse de hoje.

“(…) ‘A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas que ele criou.’

Distanciou-se um pouco, olhou o caderno, endireitou o pijama. ‘De tal modo a imaginação é a base do homem – Joana de novo – que todo o mundo que ele tem construído encontra sua justificativa na beleza da criação e não na sua utilidade, não em ser o resultado de um plano de fins adequados às necessidades. Por isso é que vemos multiplicarem-se os remédios destinados a unir o homem às ideias e instituições existentes – a educação, por exemplo, tão difícil – e vemo-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e não para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspiração. O determinismo não é um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir formiga até seu formigueiro, misturar água com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se é pequeno e quando se é grande. É erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo – o plano orientado para um dado fim real – seria a compreensão, a estabilidade, a felicidade, a maior vitória de adaptação que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas ‘para quê’ parece-me, perante a realidade, uma perfeição impossível de exigir do homem. O início de toda sua construção é ‘por quê’. A curiosidade, o devaneio, a imaginação – eis o que formou o mundo moderno. Seguindo a inspiração, misturou ingredientes, criou combinações. Sua tragédia: ter que se alimentar com elas. Confiou em que pudesse imaginar numa vida e encontrar-se noutra, aparte. De fato essa outra continua, mas sua purificação sobre o imaginado age lentamente e um homem só não encontra o pensamento tonto de um lado e a paz da vida verdadeira noutro. Não se pode pensar impunemente. Teria a loucura por fim ou o quê? Não podia adivinhar. Talvez sofrimento apenas. (…)”

 

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