Renata Bicalho 

Escritora

Renata Bicalho 

Escritora

É para lá que eu vou

de Clarice Lispector

“Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto – é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.

Onde expira um pensamento está uma ideia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia – é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou – é para lá que eu vou.

Ou não vou? Vou sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. É para lá que eu vou.

Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra ‘tertúlia’ e não sei onde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. E de mim saio para ver. Ver o que? ver o que existe. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois – depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio. Não sei sobre o que estou falando. Estou falando do nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.

É para o meu pobre nome que vou.

E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter olhos verdes e ninguém saber.

À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.

Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmito.

Oh, cachorro, cadê tua alma? está a beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.

Que estou a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.”

 

 

 

https://youtu.be/eGppViG64wI

https://youtu.be/eGppViG64wI

Gratidão por fazer parte de um projeto tão especial! La Hebra Infinita. Mujeres que cuentan. Taller de escritura mágica con Aurelia Dobles + Dedé Coseani + 35 escritoras = arte no museu! Já estou ansiosa para a próxima exposição, que terá início em junho!...

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