Renata Bicalho 

Escritora

O céu é o limite!

Por Renata Bicalho

Acabaram de me encher de gás. Me sinto inflado, cheio, orgulhoso do meu brilho dourado e da minha forma de coração. 

Junto comigo, vários outros inflados, coloridos e felizes somos levados de carro a passear por uma autopista.

O vento é muito forte, me parece que o carro vai rápido demais. Talvez seja impressão minha, já que os demais carros seguem todos no mesmo ritmo.

Chegamos a um encontro de balões! Uma festa só pra gente! Muitos e muitos inflados como eu, em vários carros diferentes estacionados lado a lado. Uma linha fina é tudo o que nos mantém unidos, o que nos impede de voar. 

Passada a euforia inicial do encontro, começo a observar que dentro de cada carro está uma família e, entre cada família, uma pessoa usando um vestido preto comprido e um chapéu estranho, quadrado no alto da cabeça e com um 2020 em dourado preso por finas linhas penduradas na lateral.

Dentro do carro em que estou, vejo quatro pessoas, que parecem ser a mãe, o pai, o jovem da roupa preta e chapéu, e um outro jovem. Devem ser irmãos.

Sinto uma mistura de sentimentos ali dentro. Estão alegres, mas as vezes bate uma onda de tristeza. Estão orgulhosos, mas as vezes sinto uma brisa de medo. Não sei ao certo o que está acontecendo, só sei que a energia ali é elevada e as emoções estão à flor da pele.

Bate um vento mais forte e balanço, dançando no ar junto com os outros ao meu lado. Estamos felizes pela liberdade! O céu está azul límpido e todos os outros carros alegram o lugar com seus balões coloridos e dançantes. 

Começa um primeiro anúncio no microfone. Os carros todos buzinam. Me assusto com o barulho.

Então vem um silêncio respeitoso. Dava pra ouvir os corações daquelas pessoas pulsando forte. Em seguida, um homem, também com aquela veste preta, começa a falar no microfone, no palco que está montado na frente dos carros.

Pelo teto solar, volto a olhar para dentro do carro, e vejo uma lágrima que escorre pelo rosto da mãe. O coração do jovem de vestido preto bate tão forte que parece fazer tremer o carro todo. O que poderia causar tanta emoção assim?

Olho ao lado, e os outros carros parecem todos no mesmo clima. O silêncio do lado de fora só é cortado pelos ruídos suaves da dança dos balões e pelo cantar dos pássaros que sobrevoam por ali, talvez atraídos pela minha beleza dourada e a alegria dos outros balões. 

Dentro do carro se ouvem vozes, música, discursos, tudo saindo diretamente do rádio. Será que todos os carros estão na mesma estação?

O tempo vai passando, vejo lágrimas, sorrisos e abraços tortos dentro do carro. 

De quando em vez se escutam buzinas, todos juntos fazendo muito barulho. O que será que estão comemorando?

Começam a sair dos carros, um a um, os jovens que estão de vestido preto e chapéu quadrado.

O 2020 balança.

Se dirigem ao palco, pegam algum tipo de papel e tiram fotos com os outros 2 homens que já estavam ali, também em vestido preto.

O jovem do meu carro volta com um sorriso de orelha a orelha. Está tão feliz que não parece que caminha, ele voa. 

A família sai do carro. Tiram algumas fotos, seguindo vários protocolos de distanciamento social. Comemoram felizes.

Alguns dos jovens de vestido preto se juntam e jogam para cima o chapéu quadrado. Eu tento acompanhar o voo dos chapéus e me solto também. Estou vibrando tão forte pela emoção desses humanos, que meu coração dourado quer voar. Para mim e para os jovens de 2020, o céu é o limite. 

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